Sim caros leitores, exatamente no dia 22 de janeiro pisei em terras germânicas pra ficar de vez.
A jornada começou no dia 19... nós casamos e comemoramos!
Depois da noite(ou melhor manha) de núpcias, fui pra casa, juntei meus trapinhos e peguei o primeiro vôo direto, que na época ainda era operado pela Varig!
Cheguei naquele misto de emoções, sem saber o que fazer, falar ou pensar. Na realidade, nem tive muito tempo pra isso. Desenrolei uns trapos, juntei outros e parti novamente rumo ao aeroporto pra minha tão esperada lua de mel no Tahiti.
Depois de maravilhosos 16 dias de sol, praia, paraíso e amor caí novamente na terra da bunda gelada e, pra ficar de vez.
Obviamente foi um choque. Sair de um país tropical e cair direto, sem escalas dentro de um freezer. Mas no começo tudo é festa, tudo é novidade e lindo. Até aparecer o primeiro winter blues.

Foram dez anos de extremo e intenso aprendizado. Começar do zero tudo novamente com 24 anos. Houveram dias muito difíceis mas também dias muitos felizes. Os dias de decepção e frustração, em que nada, simplesmente NADA, deu certo. Dias em que depois de meeeeeeeeeeses de curso, eu nao conseguia formular 1 frase correta em alemão. Dias que eu perdi o trem por estar "30 segundos" atrasada. Dias em que fui obrigada a ouvir um nao. Dias eu tive que repetir 4 vezes a mesma frase e a pessoa simplesmente nao entender e me largar falando sozinha. Dias que em que fui indelicada com as pessoas por não entender seus hábitos. Dias q fui ofendida pq nao me entenderam. Dias que eu tive vontade de empacotar minhas malas e voltar correndo pro meu país tropical.
Em compensação, houveram dias de extrema alegria. Por todas as vitórias conquistadas. A minha primeira conversação sozinha em alemão. Ao meu primeiro emprego. A minha primeira aula em que eu consegui fazer tudo certo. A primeira vez q fui capaz de responder a uma grosseria com extrema educação. Ao meu primeiro convite pra uma festa alemão. A minha primeira amizade com um local. A todas novas descobertas. Ao dia em que eu recebi meu passaporte alemão.
Quando eu cheguei aqui em
Frankfurt tudo era novo. Me senti como uma criança que aprende a viver. Passei
por situações dramáticas, engraçadas, frustrantes e posso dizer como boa
expatriada que a grande maioria foi hilariante pra ser sincera.
Me lembro da primeira vez
que fui ao supermercado aqui com o Schatz. Morávamos num bairro muuuuuito tranqüilo,
cheio de velhinhos e com um mercadinho próximo. Primeiro ponto da história:
Schatz pergunta onde está minha lista de supermercado. Caros colegas, nunca fui
dona de casa na minha vida. Das vezes q visitei um supermercado pra minha mãe
na vida(a maioria das vezes íamos juntas e, ela fazia as compras de casa e eu
colocava no carrinho as besteiras). Tá na cabeça. Na cabeça, como assim??? Bom,
o alemão fez sua listinha e lá fomos nós. Parada nos secos: arroz, macarrão, pão.
Parada na latarias: molho de macarrão, ervilha, champignon. Parada na
geladeira: iogurte, leite, requeijão. Parada na geladeira de frios: 5 fatias de
presunto, 4 de salame, 6 de queijo. Como assim fatias??? Sim, meus caros:
alemão que é alemão(especialmente os solitários e econômicos) curte pedir
fatias. Tá bom. Vai pra fila do caixa, que é literalmente expressa. Caixa passa
as compras, Schatz paga e, lá tô eu esperando o embalador ou pelo menos a
mulher me dar as sacolinhas de plástico. Até a hora q ela começou a passar as
compras do próximo e o Schatz me pergunta cadê a nossa sacola. Como assim cadê
a sacola?? Tô esperando a mulher me dar uma. E lá vamos nós, carregando nossas
comprinhas nos braços até em casa e eu tomando uma lição de economia doméstica,
meio ambiente e sustentabilidade.
E o dia da perseguição do
vizinho?? Tava aquele frio que só S.Pedro pode mandar pra Alemanha e eu fui
tirar o lixo. 4 sacolas na mao: orgânico, vidros, plásticos e o
"resto". Atrás do prédio tinham as lixeiras. Dois quarteirões depois
os container para os vidros. Schatz já tinha explicado tudo, mostrado
tudo coisa e tal. A palhacona aqui, viu um solzinho do lado de fora e achou que
já tinha esquentado. Coloquei minhas Havaianas e lá fui eu na lixeira. Sem
casaco. Quando cheguei lá fora, constatei meu engano e, saí correndo pra
colocar as sacolas lá fora. A preguiça e o frio master congelaram minha boa
vontade e, eu simplesmente joguei os vidros juntos com o lixo normal. Que mal
pode haver não?? Sim, há um mal beeeeeem grande. 4 dias depois, volto eu pra
pôr o lixo lá fora e, pra minha surpresa, "reconheço" meus vidros ao
lado da lixeira. Fui lá eu "fingir q não era comigo" e ao me virar
pra voltar pra casa, dou de cara com meu vizinho. Velhinho muito simpático, que
me explicou q os vidros deveriam ser jogados separadamente no container lá no
outro quarteirão. Então, ele repetiu, repetiu, repetiu, pegou os vidrinhos, pôs
na minha mao e me mostrou o caminho com o dedinho. Sim, ele ficou me esperando
voltar, para juntos subirmos as escadinhas que separam nossos apartamentos da
porta de entrada. Bacana, né? Não preciso nem contar que eu não entendi nenhuma
palavra q ele disse nem a cor da minha cara, partida de vergonha...
Ah, se eu fosse contar
todos os "micos" que me acompanharam nesses 10 anos...
O mais engraçado foi
descobrir depois de 8 anos aqui que eu já me sinto "parte" da
sociedade alemã. Praticamente uma batatinha. Incrível perceber, q vários pontos
de critica sobre os costumes e atitudes dos alemães, acabaram se incorporando
no meu cotidiano e virando parte do minha personalidade. E, por isso a decisão
de me tornar uma "batatinha" foi mais que selbstverständlich
natural.
Hoje quando olho para trás, por tudo q eu passei, me sinto outra pessoa. Decidir mudar pra outro país, outra cultura, outra vida foi uma decisão voluntária e altamente consciente. Hoje minha decisão de ficar aqui o resto da minha vida(viu, um costume alemão: planejar a looooooongo prazo) também é mais que consciente e voluntária. Quando decidi morar aqui, decidi ser feliz e aceitar um novo estilo de vida. Aceitar que nem tudo é como planejamos. Aceitar que aqui eu sou a minoria e preciso me adaptar às pessoas e aos costumes. E vou contar uma coisa: não é difícil como falam por aí. Os cabelos mudaram, as rugas apareceram mas a vontade continua a mesma: ser feliz onde quer que seja e, assim será!






